quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

uma história de não-amor

Estavam na aula de física. E o professor começou o assunto depois de algumas piadas ínfimas. Luquinhas, como sempre, viajando durante a aula, pensava a respeito de algodão, de nuvem, de vento, de cor... Mas, de repente, escutou o professor:
- Multiplicada pela constante, e é essa a fórmula! Fácil, não?
Mas como Luquinhas não prestou atenção, ele perguntou:
- Que constante, Professor?
E Aninha, que sempre sentava-se atrás dele, e também pensava em coisas mais importantes que Física, não pensou duas vezes ao responder: .
- A constante da tristeza.
E como criança é um ser muito cruel, não houve quem não risse. Aliás, houve. O Luquinhas. Ele parou, pensou, pensou, até que um barulho horrível invadiu seus pensamentos. Era o intervalo. Luquinhas nunca gostou de barulho que não fosse melodia, portanto, na escola, venerava o silêncio. .
Foi até a cantina comprou seu lanche e sentou-se, sozinho. Aninha ao comprar seu lanche, sempre com um ar de pensativa, sem perceber, sentou-se próxima de Luquinhas. Luquinhas reparou. E pensou novamente a respeito da constante da tristeza... Quando caiu em si, percebeu algumas manchas na saia de Aninha, olhou para seu rosto, que estava baixo, e percebeu que ela chorava. Luquinhas não sabia o que fazer, sentou-se ao lado de Aninha, que ainda não havia percebido – ela devia estar pensando muita coisa, concluiu Luquinhas -, ela não parava de chorar, suas lágrimas caiam cada vez mais grosas em sua saia, mas Aninha não fazia um barulho sequer e ele a achou linda. Luquinhas ficou apreensivo, nunca viu Aninha daquele jeito, então resolveu fazer algo que nunca passou por sua cabeça, nem mesmo no momento em que o fez, pegou uma das mãos de Aninha e acariciou-a. Aninha se assustou, mas gostou de sentir sua mão acariciada, seu coração chegou ao pescoço, passou pela cabeça de Aninha se ele estava tentando saltar para alcançar o de Luquinhas, que continuava a acariciá-la. Ela parou de chorar. Ele percebeu. Ele tocou seu rosto, limpando a trajetória que as lágrimas percorriam até chegar ao abismo do queixo da menina. Ela sorriu timidamente. Ele assustou-se consigo mesmo. Ele levantou, deu as costas a Aninha e foi embora. Ela pensou muito nele. Ele pensou muito no que ocorreria se não tivesse deixado Aninha naquele momento. Ela já não chorava mais. Ele quis ligar para ela. Ela não tinha celular. No outro dia, Aninha já não chorava mais, já não era mais tão séria. No outro dia, Luquinhas odiou o silêncio.

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